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O aquecimento global interfere na oferta de alimentos para os brasileiros

Nely Caixeta

O que anda acontecendo com as árvores brasileiras? Quem costuma acompanhar as sucessivas floradas que enfeitam as cidades e os campos no Sudeste certamente teve algumas surpresas ao longo do ano. Lá por volta de março, as paineiras, que encantam o observador com suas várias tonalidades de rosa, não repetiram a exuberância de outros anos. A mesma coisa ocorreu com os ipês, que parecem ter entrado num ciclo de reprodução amalucado. A florada da espécie amarela, que costuma acontecer na segunda quinzena de agosto e início de setembro, antecipou-se em várias semanas. Em julho, buquês de um dourado intenso já revestiam os galhos das árvores.

Embora alguns tipos de ipês apresentassem até três florações sucessivas, o fenômeno passou quase batido. A razão? O inverno quente e seco, que favoreceu a antecipação das flores, prejudicou a intensidade do florescimento e, por conseqüência, da formação de sementes. Justamente, o oposto do que aconteceu com os flamboyants, espécie que, adaptada ao clima quente da África, teve floração excepcionalmente exuberante.

À primeira vista, o florescimento irregular dessas e de outras árvores não tem maior relevância. No entanto, as alterações nos ciclos reprodutivos dos ipês estão ligadas diretamente ao aquecimento global, fenômeno que até recentemente era visto, fora dos círculos ambientalistas, como uma preocupação distante e até mesmo exagerada. Em seu último relatório, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, órgão das Nações Unidas que acompanha o aquecimento do planeta com base em pesquisas de 2.500 cientistas de todo o mundo, previu que a temperatura média da Terra poderá se elevar 5,8 graus até o final deste século.

As conseqüências seriam catastróficas. Num cenário mais pessimista, as safras dos principais grãos cultivados no Brasil cairiam pela metade, segundo estudo conduzido pelo Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Universidade Estadual de Campinas. A produção de café, com queda de 90%, seria erradicada das zonas tradicionais de cultivo no oeste paulista e em Minas Gerais para se fixar nas regiões com temperaturas mais amenas do Paraná e Rio Grande do Sul. As plantações de laranja, hoje concentradas no interior de São Paulo, se mudariam para Santa Catarina.

Qualquer que seja o futuro, o certo é que hoje as mudanças climáticas começam a ter efeito sobre a oferta de alimentos à mesa do brasileiro. “Devido à seca e às altas temperaturas no inverno, a mexerica ponkan desapareceu do mercado, o café teve a produção comprometida, o mamão, que deveria estar embarcando para exportação em outubro, amadureceu no início de setembro”, diz Daniel Guimarães, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, de Sete Lagoas. Também a produção de maçãs corre o risco de ser afetada. Em São Joaquim, na serra catarinense, o período com temperaturas frias que permitem a dormência das macieiras, fenômeno necessário para uma boa colheita, reduziu-se em sete dias e meio.

O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, diz que o problema requer atenção. “Temos 70 técnicos com nível de pós-graduação que estudam os efeitos do aquecimento e projetam, a partir dos diversos cenários, mais pessimistas ou otimistas, novos modelos para a agricultura.” É possível que o desenvolvimento de novas cultivares mais adaptadas às temperaturas quentes ajude a amenizar o problema e impeça o redesenho do mapa agrícola brasileiro.

A questão só será enfrentada para valer quando o Brasil e o restante do mundo decidirem dar combate à principal causa do aquecimento – as emissões de gases tóxicos decorrentes de processos industriais, do uso indiscriminado de combustíveis fósseis e da destruição das florestas.

(Thaís Lopes)

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